Imigração de sucesso: conheça a receita para ser bem-sucedida no exterior

Luziana Wolfer / by Vladimir Espindola

Empresária brasileira conta como saiu do interior de Minas para conquistar seu lugar no mercado norte-americano

Por Cristiane Lebelem

Bastam poucos minutos de conversa para perceber que Luziana é uma dessas brasileiras que dá nó em pingo d’água. Com a experiência de uma imigrante, que deixou o Brasil há 10 anos em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos, ela hoje faz parte de um seleto grupo de empresários brasileiros que vivem no exterior e fazem do talento o próprio negócio de sucesso.

“Investi em mim mesma: o sucesso não é uma questão de sorte, é 100% dedicação e honestidade”

Luziana  Wolfer é dona da “Best Brazilian House Cleaning Services”, uma empresa que começou com o próprio trabalho da empresária e atualmente emprega cerca de cinco pessoas, na região de Provence (Rhode Island). A mineira de 43 anos fez da limpeza, que aprendeu com todo capricho em casa, a marca renomada da companhia de limpeza, que ocupa o topo no Google somente pelas recomendações que tem recebido.

“Até depressão dizem que a nossa limpeza cura”, sorri Luziana, contando que recebe indicações de pessoas que melhoraram o estado de saúde depois do serviço de limpeza nas casas.

Mas quem olha a empresária hoje não faz ideia de seu percurso para construir uma empresa de sucesso nos Estados Unidos. Uma história inspiradora, mostrando que talento e dedicação transformam a vida de quem acredita em si mesmo.

“Você tem que criar o teu perfil quando chega em outro país. Tem que ser você!”

De passagem por Londres, Luziana deu esta entrevista que acaba de ser publicada pela Revista Fama. Acompanhe o bate-papo com a mineira sobre a experiência de ser uma imigrante bem-sucedida com a força do próprio trabalho.

Por que você decidiu sair do Brasil para tentar uma vida melhor exterior?

L.: Sempre gostei muito dos Estados Unidos, quando via os filmes e séries, sentia que aquilo era algo que eu queria na minha vida. Muitos anos se passaram, acabei indo morar em Belo Horizonte e também em São Paulo. Um dia, o destino colocou no meu caminho, em BH, um americano por quem me apaixonei. Eu não falava inglês e ele não falava português direito, mas a gente foi se virando. Ficamos dois anos namorando a distância. Resolvi embarcar na realização do sonho de morar fora do Brasil.

E chegar com visto de noiva ajudou? Como foi que você começou?

L.: Sim, cheguei com tudo certinho, mas tive que penar para pagar a documentação. Também fui à escola para aprender inglês e no começo, como não tinha um trabalho, comecei a fazer limpeza. Trabalhei num restaurante, limpando, e ganhava 5 dólares a hora. Como eu fazia tudo muito rápido e o salário era pouco, a dona do restaurante me deu mais serviço na casa dela. Foi aí que comecei a limpar casas. Também foi assim que percebi que fazer tudo bem-feito ia me dar mais chance de crescer e ter mais clientes. Com essa senhora do restaurante, tenho uma grande amizade, eu a chamo de “mãe América”. Ela foi minha primeira cliente, e como eu ainda não estava casada, também morei com ela por um tempo.

Ou seja, você sofreu na pele o que a maioria dos imigrantes sofre para dar conta da documentação e da sobrevivência?

L.: Meu marido me ajudou, especialmente no inglês, e às vezes me dava carona quando tinha que limpar uma casa muito longe. Mas eu ia a pé, de bicicleta, de ônibus, dava um jeito de atender, não esperava que alguém ajudasse. A situação era difícil, porque não dirigia, não tinha carro, não falava inglês, então, tinha que me virar. Até achava taxistas que falavam espanhol para ter sempre um contato de emergência em último caso. Mas nunca deixei um cliente na mão, e por isso, tenho esses clientes até hoje. Decidi que investiria em mim. Foi assim que comecei; mesmo debaixo de neve não negava trabalho. Às vezes, o que ganhava pagava só o transporte, mesmo assim eu continuava.

E de lá pra cá, como é a tua rotina depois dessa experiência e agora como empresária, você administra ou ainda coloca a mão na massa para trabalhar?

L.: Eu administro, mas sempre estou junto. Trabalho hoje na parte comercial, mas se não tem ninguém, vou e faço. Nunca deixo um cliente na mão.

Hoje, olhando sua trajetória, você se considera uma pessoa realizada? Pode dizer que vê o dinheiro chegando com mais facilidade?

L.: Sim, com certeza. Trabalhei duro por 10 anos. Consegui economizar para fazer a cidadania americana e comprei uma casa novinha. Hoje faço minhas viagens. Acabei de voltar de Paris. Fui à Itália. Compro o que quero. Pago todos os impostos, que são muitos, tudo direitinho. Mas foi um processo longo, que envolveu muito sacrifício. Tive momentos duros, especialmente, quando fiquei por um tempo separada e tinha que fazer dinheiro de um jeito ou de outro. Acabei perdendo minha mãe no Brasil, isso doeu muito, mas tinha que manter o foco no trabalho. Também tive gente invejosa, que queria roubar os meus clientes, aproveitando-se de que eu não falava inglês direito na época. Ouvia as fofocas do tipo “como ela tá aqui e não fala inglês, não tem carro e tem um esquema de casas”. Mesmo assim, acho que isso não impede você de correr atrás dos seus sonhos.

Falando de sucesso nos negócios, muitas pessoas fazem uma faculdade, um MBA e acham que isso vai ser o passaporte para um bom futuro. A tua experiência foi diferente disso tudo, como você vê isso?

L.: Consegui fazer um curso técnico em Economia Doméstica, no interior de Minas, numa escola pública. Cheguei a trabalhar na roça com minha família, antes de ir para Belo Horizonte e São Paulo, onde trabalhei de vendedora. Sempre batia as minhas metas. Nos Estados Unidos, cheguei sem falar inglês. O que eu acho é que o segredo é a honestidade. Fazer a coisa certa. Não interessa se está ganhando em dólar ou em reais. Às vezes, fazia algumas casas por muito pouco dinheiro, mas pensava que “talvez eu vá fazer isso, que não vale a pena, mas vou ganhar experiência, vou ganhar o cliente”. Eu fazia com tanta dedicação e no final ganhava os reviews, que foi o que me fez crescer. Tenho no meu website mais de 200, que mostram a minha história e o quanto os clientes reconhecem e gostam do meu trabalho. Como é o caso da mulher que diz que eu curei a depressão dela. Ela escreveu assim: “Minha casa tá toda diferente, eu sinto uma coisa diferente”, e os clientes começaram a me ligar contando várias histórias, querendo que eu fosse à casa delas também para ajudar a curar sofrimentos. Eu falava: “Gente, eu não faço milagres! Mas posso dizer que me dedico 100% no meu trabalho”. Levo flores para os clientes, arrumo o cantinho dos animais, mudo o cheiro da casa. É um carisma que conquista pessoas. É o jeito que passa segurança, para os clientes, e honestidade.

Você acha que aprendeu a administrar um negócio na prática, sem estudar para isso?

L.: Eu acho que essas coisas vêm da gente e ninguém tira de você. Digo que: “Você tem que fazer o seu brilho”. Chego numa casa, por exemplo, se o jardim tá feio, sujo, eu vou e limpo, coloco plantas. Acho que a gente tem que ser criativa. E hoje, estou no topo do Google, baseada nos reviews. Como os americanos usam muito isso para contratar, eles olham as experiências de outros e me ligam.

Mas qual é a sua dica para quem quer fazer exatamente isso, mas precisa administrar bem o tempo para crescer, e não tem recursos para dar mimos aos clientes?

L.: Acho que cada um de nós tem que dar prioridade para nós mesmos. Vivo dia após dia, e desde que cheguei nos Estados Unidos, pensei: “Eu quero correr atrás dos meus objetivos. Mesmo não tendo força, às vezes”. Você tem que buscar força, criar. Muitas vezes aconteceu de não ter dinheiro para comprar produtos e usava a bucha e o sabão que tinha na casa do cliente. Você tem que criar. Todo mundo pode, por que não? Em primeiro lugar, tem que buscar a força dentro de si. Se não tem dinheiro para uma flor, tenta mudar alguma coisa de lugar na casa, algo que vá fazer diferença, que chame atenção. Olha, se a pessoa levantou naquele dia é porque alguma força ela tem. Você tem que criar o seu perfil quando chega em outro país. Tem que ser você!

E como você administra essa ideia com a tua equipe?

L.: Eu faço reuniões, ensino, treino, mas separo o que é amizade do que é trabalho.

Quanto é possível ganhar na limpeza de uma casa?

L.: Varia muito de uma casa para outra, posso ganhar 150 dólares em uma e até 800 em outra. Especialmente nas limpezas para verão.

E quantas horas de trabalho para isso?

L.: Pode variar de 3 a 5 horas. Mas para isso precisa ter experiência, organização e saber fazer. Eu limpo uma casa em uma hora sozinha, por exemplo, mas houve situações em que as minhas funcionárias, em 3 pessoas, demoraram duas horas. Isso é uma coisa de prática.

Você se sente segura para negociar em inglês, quanto tempo demorou para conseguir falar bem a língua?

L.: Sim, mas levei uns 4 anos para conseguir entender. Não vejo coisas em português. Eu mesma cuido de tudo no meu negócio, então precisei me dedicar. Acho que quem quer melhorar precisa aprender pelo menos 5 palavras novas por dia. Mas tem que evitar falar português o tempo todo. Convivo muito com a cultura local, não é que não goste das coisas brasileiras, mas procuro consumir as coisas do lugar onde estou morando. Afinal, meu negócio é nos Estados Unidos.

Então hoje você é uma mulher de negócios bem-sucedida?

L.: Estou numa posição que sempre quis. Moro na América, tenho o meu business, minha casa. Em 10 anos, todos os meus sonhos se realizaram. Sou independente, vou aonde quero. Sinto-me realizada. Tudo o que trabalhei, voltou em recompensa. Olho para trás e nem acredito. Eu vim de uma família bem simples, morava na roça com meus pais, mas superei todos os obstáculos e nunca deixei minha família para trás, mandava dinheiro, comprei uma casa para eles.

Você voltaria a morar no Brasil?

L.: Não, infelizmente, não. Eu gosto do Brasil, mas a cada dia está pior. Quando que no Brasil eu teria oportunidade de ter uma vida como a que tenho nos Estados Unidos? Trabalhava desde muito cedo no Brasil. Nunca tive ajuda sequer do governo, mesmo tendo dificuldades na minha família. Era uma vida sofrida. Não tinha acesso a coisas, para cuidar dos dentes, para ter alguma coisa. É tudo meio escravidão. O custo de vida no Brasil é muito alto. Hoje em dia, eu me vejo como uma madame, que chega numa loja e compra o que quiser. No Brasil, fazendo limpeza isso seria impossível. No Brasil, o dinheiro não alcançava. Eu trabalhava 7 dias por semana e era para comida e aluguel. Olhava para minha conta e via que o dinheiro não dava para nada.

E você tem alguma receita de sucesso para quem saiu do Brasil?

L.: Quando as pessoas saem do Brasil, seja para qualquer país, tem que ter um objetivo. Tem que tentar ser melhor e não perder a humildade. Tem que aprender a língua, tentar melhorar. Já que você saiu, seja alguém. Eu continuei a mesma pessoa, só tentei melhorar. Não reclamar das coisas. Às vezes, fazia uma casa inteira pelo preço da limpeza do banheiro, que era o que a cliente tinha pedido, e não reclamava. Podia estar a neve caindo, mas eu saia. Tudo depende do lugar que se quer chegar. Eu pensava: “Isso vai servir de experiência pra mim”. Tudo valeu! Hoje, se uma casa me paga 30 dólares, a outra paga 500; de um jeito ou outro a coisa compensou. Então, o que digo é que a pessoa não pode recusar trabalho. Ela tem que ter determinação e saber o que quer. Não tem idade, não tem cor, não tem nada, existe chance. Vai ralar, mas tem como. O que eu não sentia no Brasil. Com 30 anos de vida, não se consegue mais trabalho. Mas não é uma questão de sorte, é 100% dedicação e honestidade.

* Publicado originalmente na Fama Magazine | Londres | Abril