Alegria! Alegria? Alguma alegria em tempos de tristeza

Nira Lima
Texto em colaboração para o portal Meditara por Nira Lima – Graduada em Museologia, Especialista em História da Arte e
Mestre em Memória Social..

Acordei, como acordo na maioria das manhãs, apostando no novo dia. Não sou do tipo que fica se espreguiçando na cama, ou recusa o despertador que toca.

Brasil, Rio de Janeiro – Sou aquela que acorda sem despertador, acesa, disposta. Como costumo brincar, sou aquela que acorda o galo para ele cantar e anunciar o dia.

E fico alegre. Porque acordei, porque tenho esperança no novo dia, porque me sinto viva. E saio para correr na rua, sentir o vento, ver o novo dia chegar. Sinto lampejos de felicidade antes de correr e depois, com D. Endorfina agindo, sinto muito mais. Compartilho várias vezes esse meu momento, que considero sublime, em redes sociais. A repercussão é sempre positiva e fico mais alegre do que já estava. Algumas vezes até contagio outras pessoas, o que faz meu coração transbordar.

Poucas horas depois, sou assolada, assombrada, atropelada por notícias negativas que, infelizmente, têm sido rotineiras nesses tempos e uma onda de negatividade invade, me invade. E sinto culpa de ter sentido alegria quando tudo é tristeza ao redor.

Tenho o direito de sentir alegria? A alegria virou coisa rara e na balança da roda viva da vida tem pesado menos que a tristeza?

Sou otimista, muito. Sou do tipo que, enquanto muitos falam “rapadura é doce, mas não é mole não”, eu falo ” rapadura não é mole não, mas é doce!”.

Mas e a realidade? Não sou alienada. Como manter alegria e otimismo vendo tragédias diárias ao redor. E a empatia? A empatia suplanta a alegria. Sinto a dor das pessoas, sofro vendo alguém inocente sofrer. E o dia vai se transformando e fica dividido em manhãs de alegria, tardes e noites de tensão e desesperança.

Chego a pensar que eu mesma vivo em duas realidades paralelas, pois que as duas são sentidas e vividas. Uma realidade doce e leve e outra pesada, puxada, difícil de carregar.

Meu otimismo se regenera durante o sono, se alimenta das primeiras horas e se esgota ao longo do dia.

Nietzsche fala que a esperança é uma coisa ruim porque prolonga o sofrimento ao depositarmos confiança em esperar por algo que possa nunca vir e que isso nos impede de ver e estar na realidade, no presente.

Já Guimarães Rosa diz que a “A felicidade se acha em horinhas de descuido”.

Mas e eu?… Devo continuar me alegrando com o sol nascendo e esperar um dia bom? Insisto que sim…

Sou uma corredora do tipo flâneur, uma cronista visual, encantada com os primeiros movimentos do raiar do dia… Fico encantada com esses instantes. Sou uma alma encantada pelo silencio das manhãs. Uma certa inocência de que as cidades ainda vazias e acordando resguardam uma paz e harmonia que talvez possam se arrastar por todo dia…

Amanhã acordarei pulando da cama e irei para a rua antes do dia raiar para esperar por ele com o coração cheio de otimismo e apostando nesse novo dia.

Assim seguirei, persistindo, até que chegue um dia que o dia seja todo tomado só de alegria, não só minha, mas alegria no mundo.