Brasileiros temem política migratória dura na Espanha se ultradireita crescer

A grande fragmentação política e o crescimento de ondas nacionalistas são dois dos aspectos mais marcantes da segunda eleição geral em 2019 e a quarta nos últimos quatro anos na Espanha, onde brasileiros residentes ou naturalizados espanhóis temem que as condições de trabalho e adaptação cultural piorem no país ibérico caso a ultradireita ganhe mais cadeiras no Parlamento no pleito deste domingo.

Uma das principais preocupações surge a partir dos discursos xenofóbicos e de defesa de uma política de migração mais severa do líder e candidato pelo partido Vox ao posto de presidente do governo, Santiago Abascal. Caso ele chegue ao poder, pretende fazer, por exemplo, com que as condições para quem não é europeu permanecer no país se tornem mais severas através de limitações aos trâmites legais para a permissão de trabalho, o que tornaria os contratos mais rígidos e excludentes.

“Com as ondas nacionalistas, o medo é que as condições se tornem muito rígidas, e a Espanha acelere um processo de decadência, especialmente para os turistas entrarem no país, por exemplo. Pode dificultar a estadia ou permanência de migrantes que trabalham em postos que os espanhois não querem ou não vou ocupar”, opinou a brasileira Jaqueline Alves, de 27 anos, que mora há 9 anos em Pamplona, no norte do país.

Para a assistente de recursos humanos, votar neste domingo seria uma “perda de tempo do ponto de vista do sistema político espanhol”, mas, diante do cenário nebuloso e que pode prejudicar seu posto de trabalho, mesmo ela sendo naturalizada, ir às urnas neste domingo tornou-se uma obrigação.

“As eleições não levam em conta o voto através da escolha da maioria, tornando um caminho sem fim a busca de apoio (para a formação de uma maioria no Parlamento que permita a um político governar) até eles se cansarem ou causarem uma decadência total à Espanha”, disse.

A situação também assusta a irmã de Jaqueline, Janaína Alves. Apesar de não acreditar ser “diretamente prejudicada por ter a cidadania espanhola”, ela prevê uma radicalização cultural, “o que pode aumentar a xenofobia, como acontece em regimes como o de (o presidente dos Estados Unidos, Donald) Trump”.

Pamplona tem cerca de 200 mil habitantes, dos quais ao menos 10,5% da população é estrangeira. A cidade é a capital da comunidade autônoma de Navarra, região com 512.820 eleitores e que reflete muito do que ocorre em âmbito nacional nestas eleições.

O crescimento do desinteresse pelas eleições e o dos partidos menores nacionalistas podem causar dois fenômenos em Navarra: uma expressiva abstenção, já que votar não é obrigatório na Espanha, e um crescimento da direita em uma região tradicionalmente governada pela esquerda, fragmentando ainda mais a divisão no Parlamento.

Segundo pesquisas de intenção de voto de jornais locais, o bloco de direita “Navarra Suma”, formado pela União Popular de Navarra, o Ciudadanos e o Partido Popular, deve levar a melhor, conseguindo duas das cinco cadeiras dessa comunidade autônoma em disputa para o Parlamento nacional. O PSOE, que ocupa a presidência regional com María Chivite, ficaria com uma, assim como Unidas Podemos e EH Bildu, sendo que este último partido, separatista de esquerda, entraria no Congresso após ter fracassado nas últimas eleições.

A instabilidade política e o fim do tradicional bipartidarismo entre esquerda (representada pelo PSOE) e direita (PP) apresentam “múltiplas causas, como o movimento independentista catalão e basco, os altos índices de desemprego remanescentes da crise econômica de 2008 e a retomada do preconceito e ódio contra migrantes, especialmente os do leste europeu, árabes e latinos”, afirmou à Efe o geógrafo especialista em nacionalismo europeu Rodolfo Chagas.

A situação também assusta intercambistas que chegam a Pamplona atraídos pela fama internacional das instituições de ensino locais. A cada semestre, por exemplo, a Universidade de Navarra recebe cerca de 80 alunos estrangeiros em cada departamento, um número que representa aproximadamente 20% do total de estudantes.

“Por mais que a gente não vá ficar aqui, a nossa permanência durante os quatro anos de curso está à mercê do governo que será formado, e isso refletirá na forma como seremos tratados no dia a dia, porque hoje a facilitação dos convênios internacionais contribui muito a entrada e permanência na Espanha para estudar”, relatou um estudante brasileiro que está há um ano em Pamplona e preferiu não se identificar.

A carioca Marcella Del Cima, que há 6 meses estuda na Universidade Pública de Navarra, também em Pamplona, destaca que há movimentos de esquerda que pedem a independência do País Basco (região autônoma vizinha) da Espanha e que são a favor dos migrantes e dos estudantes de fora do país, o que lhe dá conforto para permanecer no local.

No entanto, Mathias de Lima, pesquisador e bolsista da União Europeia, considera que o aumento da chegada dos migrantes na Europa impulsionou o aumento de atos xenofóbicos.

“Tenho muito medo do que pode acontecer com a chegada da extrema-direita ao poder, por exemplo, pelo aumento de atos xenofóbicos. Na Espanha, onde vivo há um ano, passei por mais situações de preconceito por ser migrante do que em outros países onde vivi”, contou ele à Agência Efe.

Atualmente, a comunidade latina cresceu muito no país ibérico, especialmente em busca de trabalho ou por fugir das fortes crises econômicas, de regimes autoritários ou mesmo pela semelhança de idioma. Em Pamplona, por exemplo, venezuelanos, equatorianos, mexicanos, colombianos e, em menor número, brasileiros ocupam vagas de trabalho temporárias no setor de serviços e que, em geral, pagam menos.

São trabalhos de limpeza, na recepção de empresas ou hotelaria e construção. “Postos que os espanhois não querem ocupar e, por isso, precisam do migrante”, ressaltou Jaqueline.

De acordo com Chagas, a facilitação dos vistos de trabalho e a abertura de mercado para migrantes se deu porque houve um “êxodo intelectual”, especialmente de portugueses e espanhóis, para países que oferecessem maiores salários na Europa, como Alemanha, ou fora dela, como Estados Unidos.

“Isso impactou na abertura do mercado e na facilitação dos vistos de residência de estrangeiros. Depois, associou-se ao movimento as crises econômicas e políticas da América Latina, fazendo com que esses migrantes procurassem os dois países ibéricos”, contou.

Para Mathias, a crise dos migrantes é global, mas na Espanha se agrava com as indefinições eleitorais e o aumento das ondas nacionalistas e do movimento separatista catalão, o que liga “um alerta” para o futuro presidente do governo espanhol, que deverá fazer acordos ou acabará sendo mais um interino no poder.