Por que a Alemanha precisa de estudantes estrangeiros

O país europeu é popular entre estudantes de todo o mundo. Cerca de 280 mil estrangeiros estão matriculados em universidades alemãs, sendo a maioria indianos e chineses. A falta de integração, porém, ainda preocupa.

Existem 2,87 milhões de estudantes universitários na Alemanha. Cerca de 10% deles vêm do exterior. Com essas cifras, a presidente do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) diz estar satisfeita. “A mobilidade transfronteiriça de estudantes, cientistas e projetos de cooperação internacional é um grande sucesso”, afirma Margret Wintermantel em entrevista à DW.

Depois de Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, a Alemanha é o país mais popular entre estudantes universitários em todo o mundo. Segundo Wintermantel, ainda falta, porém, uma estratégia em toda a Alemanha para integrar esses estudantes.

O tema da educação universitária foi assunto na emissora pública alemã ARD durante a última semana. De 9 a 16 de novembro, o canal promoveu a semana temática Futuro Educação, com tópicos como cotidiano educacional, diversidade, digitalização, idioma e educação comparada.

Maimouna Ouattara vem da Costa do Marfim e está fazendo doutorado na Universidade de Potsdam. Ela diz se sentir bem integrada. Como presidente da Associação Alemã de Universitários Estrangeiros, ela aconselha estudantes internacionais principalmente em questões jurídicas e se engaja contra a introdução de mensalidades para alunos não europeus.

Ela reconhece as vantagens de estudar na Alemanha. “Os estudantes vêm, entre outras coisas, porque desfrutam uma boa educação aqui e, com o diploma de alemão, têm mais oportunidades no mercado internacional”, afirma Ouattara em conversa com a DW. Outra vantagem: a maioria das universidades não cobra mensalidades.

Mas a costa-marfinense também reconhece os problemas. Ela ainda se lembra do difícil início de seus estudos na Alemanha. “Eu frequentei um curso de idiomas, mas fiquei perdida logo na primeira aula”, diz ela. “Por exemplo, eu não sabia como fazer anotações ou transcrições de aulas.”

Alta taxa de evasão entre estrangeiros

Numa cultura estrangeira, com idioma e burocracia diferentes, não é tão fácil se integrar. Muitos se sentem abandonados. A taxa de evasão de estudantes estrangeiros ainda gira em torno de 41% – o que é considerado muito alto, segundo Margret Wintermantel.

“Temos que garantir que o sucesso estudantil de universitários estrangeiros melhore. Não podemos continuar aceitando que jovens venham até aqui, interrompam seus estudos e voltem para casa frustrados”, diz a presidente do DAAD, acrescentando que os estudantes precisam de mais apoio e mais aconselhamento, e as universidades necessitam de recursos financeiros para isso.

Nos cursos de idioma, há mais demanda que vagas. Esse também é o caso da Universidade Otto von Guericke, em Magdeburg, onde Akram Elborashi estuda medicina. O egípcio está ligado à IKUS, uma associação de estudantes que ajudam na integração de outras pessoas.

Elborashi organiza, por exemplo, excursões com estudantes estrangeiros e alemães. “Eu também cuido de problemas interculturais nas residências universitárias e ajudo na tradução entre zeladores e residentes.” Infelizmente, muitos deles não falam alemão. “Os cursos de alemão gratuitos estão sempre cheios, há longas filas de espera.”

O reitor da Universidade Otto von Guericke, Jens Strackeljan, reconhece o problema. Ele trabalha para a internacionalidade de sua universidade e apoia os estudantes com a ajuda do DAAD. A universidade diz se preocupar de forma direcionada com os refugiados sírios. Após medidas de preparação, dez deles puderam começar seus estudos.

Comunidades fechadas

A Universidade de Magdeburg é predominantemente orientada para a tecnologia e ciências naturais, sendo considerada particularmente cosmopolita. De seus 14 mil estudantes, mais de 3 mil vêm de 106 países diferentes. “Isso não facilita a integração”, diz Strackeljan à DW. O maior grupo é composto por 950 estudantes indianos que formam sua própria comunidade em Magdeburg. As aulas dos programas de mestrado acontecem em inglês.

Jens Strackeljan diz querer evitar que os asiáticos só fiquem entre si e tenta atrair mais indianos para os cursos de bacharelado. Lá eles aprendem alemão desde o início. “Se não conseguirmos oferecer cursos de idiomas suficientes, é quase impossível uma conectividade com o mercado de trabalho no estado da Saxônia-Anhalt”, aponta o reitor. E isso apesar de as empresas estarem, especialmente no Leste da Alemanha, buscando desesperadamente força de trabalho.

“Nossa sociedade precisa mais pessoas com boa formação, também imigrantes qualificados em muitos setores, por exemplo, nas novas tecnologias, como inteligência artificial, e em geral nas áreas de engenharia”, confirma Margret Wintermantel, do DAAD. “Para isso, eles devem ser capazes de encontrar o caminho para o nosso mercado de trabalho.”

Magdeburg mais cosmopolita

Mas integração não significa apenas trazer profissionais por meio de cursos de idiomas para trabalhar no país. É também chegar à sociedade, sentir-se confortável nela. O reitor Jens Strackeljan teve boas experiências trabalhando com a prefeitura de Magdeburg.

Um centro de acolhimento está sendo planejado no centro da cidade para atender a questões especiais dos recém-chegados acadêmicos. “Deve se tornar um ponto de encontro aberto, mostrando que se é bem-vindo aqui”, diz Strackeljan. “Isso dará mais visibilidade aos estudantes estrangeiros.”

Strackeljan diz querer tornar Magdeburg mais cosmopolita. Ele afirma ver sua responsabilidade não apenas pela universidade, mas também pela sociedade. Segundo o reitor, especialmente numa sociedade em envelhecimento, a universidade é uma forma de atrair jovens para a cidade e mantê-los lá.

Levando em conta que populistas de direita acabaram de vivenciar um resultado eleitoral excepcional na Saxônia-Anhalt e recentemente também na Turíngia, essa não é uma tarefa fácil, aponta o reitor. A atitude xenófoba dos populistas afasta tanto os estudantes estrangeiros quanto os alemães.

Strackeljan recebeu ameaças de morte do campo direitista. “Isso foi exagerado”, diz o reitor, falando que mexeram em seu carro de forma que o pneu dianteiro se soltasse. “Além de haver pichações que intimidam alguém a continuar mantendo sua posição.” Por fim, ele decidiu não se deixar intimidar e manter sua universidade cosmopolita.

Akram Elborashi diz não ter vivenciado experiências xenófobas até agora. Ele fala que gosta da Alemanha e também quer permanecer depois dos estudos. Ele tem seus amigos em Magdeburg – e acredita que estará mais protegido, mais tarde, com seu trabalho: “Na Alemanha se está bem assegurado mesmo que se ganhe mais dinheiro como médico nos EUA.”

O estudante egípcio explica: na Alemanha, há seguro de saúde, seguro de cuidados na velhice e aposentadoria a receber mais tarde.  “Faltam médicos aqui, a Alemanha precisa de mim”, completa: “Então por que devo sair?”

Fonte: DW