E agora? “Quem cuida, adoeceu”… O que leva a equipe inteira de Enfermagem ao extremo do Suicídio?

Foto reprodução

A enfermagem no Brasil precisa de cuidados, apresenta condições de subjornada de trabalho, subsalários e subemprego, conforme “Perfil da enfermagem no Brasil”.

*Por Tatiana Rodrigues de Moraes
Tatiana Rodrigues de Moraes (Tok Fotográfico)

Enfermagem, ciência cujo objetivo é a implantação do tratamento de doenças e o cuidado ao ser humano individualmente, na família ou em comunidade de modo integral e holístico. É composta por técnicos de enfermagem e enfermeiros, profissionais com formação e funções distintas dentro de uma mesma área.

A enfermagem é uma das poucas profissões da área da saúde que pode mesclar o “humano com o científico”, além de cuidar do paciente, atua na prevenção de doenças e na produção de pesquisas.

Considerada a “arte de cuidar”, encontram-se no setor público 60%, no setor privado 32% e no ensino 8%, sendo o maior número de profissionais na área de saúde.

Além da enfermagem geral existem as especialidades segundo Resolução COFEN nº 581/2018.

Conforme estudo temos desgaste de 66% em situações de falta de respeito e cordialidade dos pacientes e familiares usuários do sistema de saúde.

“Há um sentimento de invisibilidade, desgaste, estresse. Apenas 29% dos profissionais tem algum tipo de proteção no ambiente de trabalho contra a violência.  É uma queixa forte e presente na fala deles”.

Machado, Márcia Helena

ENSP/Fiocruz

As condições de trabalho de profissionais da enfermagem, é uma determinante da saúde do trabalhador, eles estão expostos aos mais diversos riscos ocupacionais até mesmo na atenção primária.

“A qualidade de vida no trabalho é um dos principais determinantes de uma boa qualidade de vida. Vida sem trabalho não tem significado, assim sendo, o trabalho passou a ocupar um lugar central na vida do homem”.

Hadad (2000)

Segundo Mendes (1988), vários autores destacam que as condições de trabalho vivenciados por muitos trabalhadores da equipe de enfermagem, particularmente no ambiente hospitalar, têm-lhes ocasionado problemas de saúde, frequentemente relacionados à situação e setor de trabalho, provocando prejuízos pessoais e socioeconômicos.

As atividades da enfermagem são marcadas por fragmentação de tarefas, rígida estrutura hierárquica para o cumprimento de rotinas, normas e regulamentos, insuficiência de profissionais, entre outras questões pelas quais tem repercutido no elevado absenteísmo e afastamentos por doenças.

Foto reprodução (Nurse Suicide man)

Segundo a NR 09 do MTE – Ministério do Trabalho e Emprego, considera-se riscos ambientais os agentes físicos, químicos e biológicos existentes nos ambientes de trabalho que em função de sua natureza, concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde do trabalhador.

Estes riscos aos quais esses trabalhadores estão expostos, são grandes fatores predisponentes de causarem doenças e acidentes de trabalho.

Caminhando por doenças e consequências que acometem estes profissionais frequentemente, temos a depressão que tem levado à tentativas frequentes de suicídio.

A depressão é umas das três doenças mais referidas pelos trabalhadores da equipe de enfermagem, para tanto, os responsáveis pelos serviços de saúde devem identificar este problema precocemente, promover a saúde no trabalho, evitar desfechos tristes e fatais, bem como a diminuição ou perda da qualidade da assistência prestada.

Os altos índices de depressão e riscos para o suicídio contrastam com o trabalho, desempenhado pelos profissionais de enfermagem, espera-se o cuidado, mas que também por outro lado, pode necessitar ser cuidado.

Portanto, quais fatores contribuem para a depressão e risco de suicídio entre os profissionais da enfermagem?

– Depressão;

– Ambiente de trabalho;

– Conflitos familiares;

– Conflitos interpessoais no ambiente de trabalho;

– Estado civil;

– Estresse;

– Maior nível educacional;

– Plantão noturno;

– Renda familiar;

– Sobrecarga de trabalho.

Risco de Suicídio:

– Depressão;

– Baixa realização pessoal;

– Síndrome de Burnout.

Todos os fatores relacionados diretamente com a depressão podem também estar relacionados indiretamente com o risco de suicídio, visto que a depressão é considerada uma preditora do mesmo.

Necessário se faz considerar a saúde e qualidade de vida destes profissionais, sua prática profissional se dá em realidades complexas, relações humanas das mais diversas, lidar com exigências, com fatores de risco que podem produzir a depressão e suicídio, contribuem para o adoecimento e comprometem a realização do cuidado.

O profissional de enfermagem deve ser visto como uma pessoa que também pode sofrer danos à própria saúde, a gravidade dos riscos que estão expostos, também no trabalho quanto na vida pessoal, em desenvolver transtornos mentais, que são negligenciados.

Os fatores de risco devem ser identificados precocemente, para prevenir e/ou tratar a depressão e evitar o suicídio.

Ações como prevenção, identificação, diagnóstico e intervenção precoce, tratamento e reabilitação psicossocial do profissional de enfermagem, devem ser implantadas urgentemente em todo e qualquer local onde possam atuar, melhorias salariais, adequações ambientais dentre outros.

“O suicídio não está isolado, são vários os motivos que interagem de forma complexa que levam ao desejo de morrerem. Muitos associam a profissão como causadora, mas geralmente é um conjunto de situações, como abandono, medo, solidão, culpa, instabilidade emocional, desestrutura familiar, infância reprimida, seja por dor, ou abuso”.

Capelão Reis

Essa classe não possui planos de carreira, não tem reconhecimento merecido, é vista como alguém que vai receber ordem de alguém e não é assim.

“Além do salário defasado, sobrecarga de trabalho, a responsabilidade, cobrança em cima da profissão, desajuste de horário, noites de plantões, plantão em festas de final de ano, mesma rotina sempre, sem oportunidade de crescimento, uma vez técnico de enfermagem/enfermeiro sempre técnico de enfermagem/enfermeiro”.

Observa-se que devemos discutir sobre o ambiente de trabalho destes profissionais e suas rotinas de vida, a exposição das mais distintas formas de excitações físicas e mentais, os tornam mais susceptíveis a desenvolver ideação suicida.

Estes profissionais devem ser compreendidos para além de um trabalhador de saúde, devem ser vistos como pessoas que também podem sofrer em seu bem-estar.

É preciso debater este tema, já que o número de suicídios tem aumentado gradativamente em nível mundial, com a precariedade de trabalho é visto que o sofrimento psíquico influência para a levada de uma ideação suicida ou até mesmo o suicídio consumado.

“A enfermagem recebe e carrega uma carga emocional muito forte por apresentar grande responsabilidade no dia a dia do paciente e estar presente à beira do leito 24 horas por dia. Em seu cotidiano, lidam com sofrimento humano, dor, a alegria, a tristeza e a morte”.

Enfermeira Merari Gomes

A falta de condições de trabalho e o congelamento dos investimentos na área de saúde por 20 anos, com a promulgação da Emenda Constitucional 95, em 2016, são outros fatores que contribuem para o problema do adoecimento, ressalta Sebastião Duarte. A rotina de estresse se agrava quando o profissional de enfermagem se depara com a falta de material e equipamentos no serviço de saúde.

“Há a necessidade de estabelecer estratégias pontuais de intervenção em saúde mental, bem como carece de um olhar humanizado para cuidar de quem cuida. A gente pensa em fazer uma parceria com o Coren (Conselho Regional de Enfermagem) e fazer um inquérito mais aprofundado. Os gestores também precisam discutir para ter intervenção porque isso é muito sério”, destacou Souza.

Com uma maior humanização e envolvimento da equipe de enfermagem frente às necessidades individuais e elaboração de estratégias terapêuticas com foco na escuta e observação, será possível aperfeiçoar o atendimento ao indivíduo na sua integralidade e na prevenção do suicídio e de doenças relacionadas ao trabalho assim como acidentes de trabalho.