Uma enfermeira portuguesa nos cuidados intensivos em Londres

A ordem é importante: primeiro a touca, o chamado “surgical hat”, depois a máscara de proteção facial, depois os óculos de segurança (os “goggles”), depois um primeiro par de luvas, depois o fato completo que tem de ser atado atrás por um colega, depois o segundo par de luvas que é usado por cima das mangas do fato e segurado com fita cola. Depois ainda um avental de plástico, que é opcional, e, nos pés, uns crocs de plástico. São 10 minutos no total, “cinco, na melhor das hipóteses, porque já estamos a ficar experientes”. Os enfermeiros da ala de cuidados intensivos de um dos hospitais de referência do Reino Unido para tratar doentes com Covid-19 estão finalmente prontos para começar o turno. Esperam uns pelos outros e, dispostos em fila, dão o ‘ok’ final: abrem-se as portas duplas, e já está. Acabaram de sair da ala limpa.

“Sentimos sempre um friozinho na barriga quando as portas duplas se abrem”.

Ana Carvalho é uma das enfermeiras desta unidade. Tem 29 anos, é de Lisboa e está há quatro anos em Londres, a trabalhar naquele hospital, numa unidade de cuidados intensivos para adultos especializada em transplantes de fígado que, num estalar de dedos, passou a ser muito mais do que uma unidade especializada em problemas hepáticos.

“Começámos a preparar-nos ao ver o que se passava na China, em Itália e no Irão, mas, nessa altura, ainda havia poucos casos aqui e não havia nenhum caso em Portugal; estávamos preparados para acomodar um, eventualmente dois doentes, tínhamos guidelines claras e concisas, mas que iam sendo moldadas todos os dias”, começa a explicar ao Observador, dizendo que, nessa altura, os profissionais de saúde daquele hospital começaram logo a receber formação para usar os equipamentos de proteção. Mas tudo mudou num ápice: “Foi tudo muito rápido, quase sem darmos conta posso dizer que o número de admissões quadriplicou numa semana, ou pelo menos aumentou exponencialmente de dia para dia“.

Agora estão naquela unidade cerca de duas dezenas de doentes internados, entre suspeitos e casos confirmados, número que há dois dias era cerca de metade. É ali que estão os casos considerados mais críticos, que precisam de ventilação mecânica, suporte cardiovascular ou hemodiálise temporária. Todos os outros vão para a enfermaria de doenças infecciosas, que também acaba por receber os doentes críticos quando têm sinais claros de melhoria, num processo de transferência que “parece digno de um episódio de Anatomia de Grey”.

É que naquela ala dita “suja” não entra ninguém que não esteja equipado dos pés à cabeça, o que faz com que todas as transferências de uma ala para outra sejam demoradas e penosas. Até os médicos e os profissionais de saúde afetos a outras equipas “limitam ao mínimo” as visitas ali ou aos quartos isolados.

Para comunicarem uns com os outros, os que estão na ala limpa e os que estão na ala suja, só com recurso a “telemóveis portáteis internos” ou mesmo à moda antiga: “muitas vezes colamos documentos Word com letras bem grandes contra o vidro da porta ou comunicamos por mímica através das portas fechadas”. Já os telefones são telefones portáteis que só servem para chamadas internas, havendo um junto a cada paciente. É essa a forma muitas vezes usada para comunicarem de fora para dentro, e vice-versa.

Isolados lá dentro com os casos mais graves, resta aos enfermeiros o papel de lidar com os doentes que, quando saem do coma induzido, ficam “muito ansiosos” por verem tamanho aparato e os profissionais de saúde totalmente protegidos. “Eles ficam preocupados com as suas famílias e pedem muito para verem as notícias todos os dias, fazem-nos muitas perguntas sobre o exterior”, conta a enfermeira portuguesa ao Observador. Até agora os números são positivos: zero mortes naquela unidade e algumas altas para a enfermaria.

Marcas de guerra

Passaram duas horas e, se o trabalho que estão a fazer naquele momento o permitir, é hora de trocar. O problema é que quem fica a segurar as pontas é um chamado “grupo 2” ou “rescue group“, que é mais reduzido e, por isso, fica sobrecarregado. Mas é preciso descansar o rosto das marcas da máscara. Se o procedimento de vestir o equipamento leva cinco minutos, o de despir leva o dobro por ser “muito mais perigoso”. Naquela unidade há três alas: uma delas foi agora convertida em ala dos infetados, a outra é para pacientes limpos (que continuam a precisar de cirurgias e transplantes ditos normais), e a outra é para isolamento de casos suspeitos. Tanto numa como noutra há um local próprio para se equiparem antes de entrar.

A ordem continua a ter importância máxima: tirar o avental e o fato cuidadosamente, enrolando para dentro; as luvas de fora saem à medida que sai o fato, depois tiram-se as luvas de dentro. Aí, um colega passa o álcool para desinfetar as mãos e dá ao enfermeiro um novo par de luvas que serve para ajudar a tirar os óculos do rosto. Depois, é a vez da tira de cima da máscara e depois a outra. Nessa fase, o corpo curva-se para o lixo para tirar a máscara por completo e pôr imediatamente no saco: “Que alívio”. Fica a faltar o “surgical hat”, que se tira por cima, e, depois, um colega dá ao enfermeiro toalhitas com lixívia para desinfetar as crocs. “Só aí é que saltamos a marca do chão para a zona limpa”. Estão novamente na zona segura.

Está terminada uma ínfima parte do dia, ficam a faltar mais três ou quatro procedimentos iguais a este. “Duas horas pode parecer pouco, mas cada respiração numa máscara e em fatos é penosa, quente, ofegante, sobretudo quando se está ocupado a prestar cuidados”, conta a enfermeira portuguesa ao Observador a partir de Londres. A dor é física e psicológica. “Ao longo do turno de 12 horas, a pele da cara fica cada vez mais sensível, dorida e com marcas que, por vezes, ainda no dia seguinte são visíveis, prontas para serem ainda mais definidas. O simples usar de óculos torna-se penoso, a pele das mãos está tão seca de tanta lavagem e álcool… e o simples facto de ir buscar algo que deixamos cair ao chão torna-se penoso”, acrescenta.

Há uma semana que o dia a dia de Ana Carvalho e de tantos outros enfermeiros é este. Equipar, entrar, desequipar, sair — e repete três a quatro vezes por dia. Cada turno não dura menos do que 12 horas e, nos casos em que são turnos noturnos, poucas vezes se lembra de dormir. “No turno da noite, mesmo cansados, raramente conseguimos dormir com a adrenalina e ficamos em grupos a conversar na staff room“.

Não há outro tema possível. “Por enquanto, ainda não falaram em cancelar férias, como fizeram em Portugal, até julho, mas a ideia de descansar é muito relativa: vejo-me num loop a querer saber como está a minha unidade e como estão os meus colegas”, conta.

Na unidade onde está não há, ainda, casos de profissionais de saúde infetados com o novo coronavírus.  Apenas “um ou dois” estão a precaver-se em casa, por terem alguns sintomas ou serem grupo de risco. Mas essa é uma realidade que “assusta” quem está na linha da frente. Mesmo que a média de idades destes enfermeiros seja baixa e mesmo que não tenham doenças prévias associadas — isso já não interessa nada.

“Eu própria não levava isto muito a sério até ver os casos aumentarem exponencialmente e ver que a média de idades afinal era bem inferior à que eu tinha em mente, que era uns 80 anos. Comecei a ver que afinal o historial de condições médicas prévias pode existir mas quem não as tem está também suscetível de ser infetado”, conta, afirmando que entre os doentes que recebe a média de idade ronda os 50. Isto nos cuidados intensivos — “não sei qual é a realidade na enfermaria”, sublinha, dando a entender que lá pode haver casos de pessoas com idades mais baixas.

A saturação já é evidente, e ainda só passou uma semana de trabalho árduo. “Já estamos a ficar saturados, cansados, e o facto de não sabermos por quanto tempo teremos que aguentar torna tudo pior, a incerteza, o desconhecido, o não saber com o que contar…”, desabafa. O trabalho é todo feito em equipa e a aprendizagem é feita à medida das sugestões de cada um. Trata-se, na verdade de um processo de “tentativa/erro”, com sugestões de quem está na frontline aos superiores, que, segundo conta, são flexíveis em ouvi-las. “Porque mesmo para eles, tudo é novo e não existem guidelines de como atuar numa pandemia em que ainda só estamos a ver a ponta do iceberg”.

O apelo é para que se diminua o tamanho do iceberg, já que o choque é uma realidade incontornável: a diferença é se será um choque com um gigante ou um choque com um iceberg de pequena dimensão. E quem pode fazer essa diferença é quem fica em casa, em isolamento voluntário.

“Isto vai acontecer, está a acontecer. Por favor, não usem luvas e máscaras em vão”

“Fiquem em casa”, “não se queixem de estar entediados em casa” e “não usem luvas e máscaras em vão”, são os apelos que esta enfermeira portuguesa residente em Londres deixa aos portugueses. “Só posso desejar que cada um cumpra a sua parte, e para quem pensa que isto ainda é algo surreal ou que só acontece ali ao lado em Itália, ou ali ao lado em Espanha… desengane-se. Num piscar de olhos, afinal, está mesmo aqui, em direto“, afirma, admitindo que ela própria era das que pensava — até há duas semanas ou três — que esta era “só mais uma gripe”, ou “só mais um coronavírus”, já que há anos que trata doentes com coronavírus (de outro tipo).

Na unidade para infetados onde trabalha neste hospital de Londres ainda não há falta de equipamento. “Temos cerca de 30 ventiladores para 34 camas no total, o que é um bom rácio”, diz. Mas se o hospital pensar em expandir a ala de cuidados intensivos — e essa é uma possibilidade na medida em que já se pensa, inclusive, em treinar enfermeiros da enfermaria para trabalhar naquela unidade –, já nada garante que seja suficiente. “Para quem pensa que temos capacidade e vamos dar conta do recado, que se engane. O número de camas e de pessoal não aumenta, mas os casos continuam a aumentar. Tenho colegas italianos a dizerem-me que não há espaços no cemitério, que há crematórios a funcionarem 24 horas por dia e que ninguém pode ter um velório para se despedir dos seus entes queridos”, conta.

O Reino Unido tem atualmente (à data de 22 de março, às 19h) 5.683 casos positivos para Covid-19, 281 mortes e apenas 93 casos considerados totalmente recuperados. Inicialmente, a política naquele país foi de facilitar a difusão do vírus para garantir uma espécie de “imunidade coletiva”. Não houve medidas restritivas drásticas numa primeira fase, só as tradicionais medidas de higiene e segurança pessoal, mas esta quarta-feira já houve ordens para encerrar escolas e locais públicos. O famoso metro de Londres, por exemplo, já só abriu com 40 das suas estações encerradas.

Ou seja, isto “está a acontecer”. O aviso desta enfermeira portuguesa que está na linha da frente no combate ao novo coronavírus não podia ser mais claro: “Aqui, ou em Portugal, ou em qualquer lado do mundo, isto vai acontecer, está a acontecer”. E o pico ainda está para vir, nota. Por isso, o conselho é este: “Se não ficarem em casa, se não lavarem as mãos, se não pensarem por onde metem as mãos e se continuarem a usar luvas ou a usar máscara sem terem sintomas — por favor, parem–, asseguro-vos que essa falsa proteção acaba por tornar tudo ainda pior e aumentar o risco de contágio”.

O apelo é alarmante, mas Ana Carvalho pede, ao mesmo tempo, que o pânico não seja sinónimo de corrida aos supermercados, já que os próprios profissionais de saúde que saem dos turnos de 12 horas no hospital e vão ao supermercado já se começam a confrontar com falta de opções.

No final, é Ana quem faz a pergunta e dá a resposta possível: “Se estamos preparados para isto? Não sei”.

Fonte: ObserverPT