Brasil passa por deficiência energética

Em 1990 o Brasil tinha 149 milhões de habitantes. Hoje temos 220 milhões de habitantes, quer dizer, em 30 anos a população subiu 50%. E a nossa matriz energética está cada vez mais dependente de termoelétricas movidas a combustíveis fósseis, porque essas podem ser construídas perto das grandes cidades. Não precisa de linhas de transmissão, nem despesas para conectá-las, agora, e se você tem que levar energia para o Amapá? Como será feito? Só tem uma linha de transmissão para o Amapá. Se ela cair, ou cair a subestação que faz a conexão dela com a rede de distribuição, o estado fica sem energia. O engenheiro elétrico Ivo Pugnaloni, diretor da ENERCONS, empresa especializada em consultoria em energia, diz que estamos passando por um cenário de inconsistência energética, uma aventura.

“Estamos contando com a sorte. Para o resto do Brasil a situação talvez não seja da mesma natureza, mas ela preocupa muito, porque a população aumentou em 50%, mas não aumentou a nossa capacidade de armazenar água. Aumentou a capacidade de armazenar petróleo. A capacidade de armazenar água é o que define a nossa estabilidade em relação às secas. Se eu tenho menos reservatórios de água, se eu tiver uma seca, eu não terei água para gerar, terei que usar a outra coisa, o petróleo, água é mais barato armazenar, porque ela não paga frete, o óleo para, o combustível paga frete, transporte, seguro. Não precisa consumir a água para gerar energia, basta deixá-la fluir por dentro das turbinas e devolvê-la, ainda mais oxigenada, ao leito do rio”, comenta o ex-presidente da COPEL Distribuição.

No Paraná, por exemplo, com no Rio Iguaçu, existem hoje seis usinas, usando a mesma água, sem poluir. Além de limpá-las no processo de transformação de energia, atuando como um filtro e oxigenando a água, propiciando a produção de espécies aquáticas que alimentam os peixes. “Empresas energéticas, bem administradas, tanto privadas, quanto estatais, são várias no Brasil, que conseguem oferecer um serviço de qualidade para a população em muitas regiões, mas não em todas as regiões. É um excelente negócio, mas o país ainda está longe de conseguir ter suficiência energética de qualidade e segura para que todo o país possa crescer. Ainda há regiões muito carentes de bons sistemas de distribuição e transmissão”, comenta o especialista.

O engenheiro diz que nos Estados Unidos existem, atualmente, três mil empresas distribuidoras de energia. No Brasil, neste ano, somam-se 42, apenas, revelando pouca concorrência e concentração dos ativos. Agora, no Paraná, um grande projeto, o Complexo Palmas II, está para se tornar um dos principais projetos de geração de energia do Estado. Pugnaloni explica que toda parte técnica, jurídica, ambiental, está praticamente encerrada e bem encaminhada. “Agora estamos tratando das questões do financiamento, dos investimentos, pois é um valor muito elevado de 1 bilhão e duzentos milhões de reais. E isso é, logicamente, um dos maiores investimentos no Paraná hoje e não são muitos os grupos econômicos com condições de investir tudo isso. Estamos em contato com alguns grupos, trocando informações, estão sendo feitas projeções de retorno de investimento, avaliações de alto nível. Isso é demorado. Mas enquanto isso estamos dando sequência ao licenciamento e às conexões elétricas que são muito importantes. A COPEL com a responsabilidade de atendimento a esses novos acessantes, vai desenvolvendo suas atividades. Estamos confiantes porque, entre outras razões, o Brasil está numa situação que se assemelha muito a 2001, que é o risco de desabastecimento de energia”, completa.

Para o executivo, as energias renováveis com as PCHs, CGHs, eólicas e à biomassa são a vocação energética do Paraná por três grandes motivos. “Primeiramente, por razões geográficas, porque temos três planaltos em sequência que funcionam ao mesmo tempo como gigantescas bacias acumuladoras de água e excelentes locais de vento, como em Palmas, onde estamos a 1250 metros de altitude, além das regiões de Cascavel e Toledo. Em segundo, por termos menores perdas elétricas ao transportarmos a energia que geramos, pois estamos bem ao lado da divisa do sub mercado sudeste, onde está o centro de carga do Brasil. Em terceiro lugar por razões econômicas, por termos a indústria madeireira, florestal, de álcool que gera bagaço, construção civil e equipamentos das mais desenvolvidas no Brasil. Além é claro de toda a experiência de engenharia que nossas empresas, famosas em todo o Brasil, acumularam nesses 50 anos desde a construção de Itaipu e das usinas do Iguaçu pela nossa COPEL”, afirmou o diretor da ENERBIOS e da ENERCONS, empresas que atuam no desenvolvimento dos projetos eólicos de Palmas e de pequenas hidrelétricas.